OLIVIA RIOS
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Movimento anticoach nas redes faz alerta sobre positividade tóxica no trabalho

Conselhos desmotivacionais geram identificação em profissionais em nome da saúde mental, contra ‘oba-oba’ do sucesso e da felicidade 100% do tempo

Jayanne Rodrigues, Especial para o Estadão

05 de dezembro de 2021 | 05h00

Correções: 05/12/2021 | 11h37

Os brasileiros alcançaram a maior taxa de ansiedade e depressão entre os 11 países analisados na pesquisa “Mental Health among Adults during the covid-19 Pandemic Lockdown”, divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Algumas frases se encaixam com esse sofrimento coletivo: “Trabalhe enquanto eles dormem”, “Para vencer na vida, basta querer”. 

Elas surgiram como antídotos oferecidos por alguns coaches, mas hoje ganharam outra face. Tornaram-se memes, ou melhor, frases desmotivacionais. Mas, afinal, acolher o fracasso é saudável? O caminho é o meio termo, “nem positividade tóxica nem negatividade tóxica”. “A gente precisa se encontrar no que for mais próximo da nossa realidade”, afirma Paula Dione, psiquiatra da Holiste Psiquiatria. 

Para o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que estuda a sociedade do cansaço e da performance, o sistema econômico mundial cria a ilusão de que precisamos abrir mão de algo para viver o sucesso ou ter o emprego dos sonhos. Essa cortina de fumaça tem um preço alto e, na maioria das vezes, quem paga é a nossa saúde mental.

Em linhas gerais, a positividade tóxica rompe forçadamente as emoções negativas. “Aí vem o questionamento dessa exigência de um funcionamento positivo o tempo inteiro. Porque a vida é feita de altos e baixos”, revela Paula Dione. Ela também esclarece que compreender as instabilidades como aprendizado é o pulo do gato. Pois o problema acontece quando abraçamos ideias ilusórias e nos frustramos com a expectativa projetada. 

No ambiente de trabalho, Dione aconselha: “A ideia é não ficar acomodado nem sofrendo se exigindo demais. Precisamos encontrar o nosso ponto de equilíbrio”. Mas o excesso de positividade e desempenho foi algo particularmente acentuado durante a pandemia. Memes que viralizaram nas redes sociais revelavam: “Eu por mim não trabalhava nem enquanto eles trabalham, quem dirá enquanto eles dormem”.

A psiquiatra explica que as frases desmotivacionais são um convite para refletir sobre o impacto de discursos vazios no cotidiano. Os memes podem ser ilustrados por aquele chefe que cobra produtividade, independentemente do contexto. Mas se esse comportamento afeta os funcionários, por que ainda existe?

Coach e o autoconhecimento

“Muitos que se dizem profissionais de coaching. Às vezes, por desinformação acham que estão prontos para lidar com a natureza humana, e isso não é verdade”, avalia a diretora de marketing da Associação Brasileira dos Profissionais de Coaching, Magnolia Abramo. Ela resume os serviços oferecidos pela categoria em duas palavras: autoconhecimento e planejamento estratégico.

Abramo defende que os especialistas acompanhados pela associação utilizam a psicologia positiva, que se baseia em um processo de inteligência emocional. “No ambiente corporativo, vamos tratar de unir a equipe. A gente vai trabalhar com a psicologia positiva: ‘Olha só, a gente unido é mais forte’. Não é um oba-oba.”

Mila Costa, de 34 anos, resgatou vivências da própria realidade para produzir cenas satíricas de trabalho e problemas da vida adulta. Um dos reels (veja abaixo) compartilhados no Instagram da produtora de conteúdo simula os presentes inusitados de funcionários em uma comemoração ficcional. De forma humorada e com sotaque cearense, ela dispara: “Parabéns pelos seus 10 anos de empresa! Grafite (lapiseira) é para quando você achar que acabou todas as forças, você trabalhar mais e lembrar que sempre tem carga pra botar”.

Falar de uma forma satírica sobre a romantização do excesso de trabalho não significa estimular o pessimismo e a negatividade, defende Mila. Para ela, descartar o radicalismo é um começo para manter o equilíbrio quando o assunto é vida real. “Tem aquela pessoa que diz: ‘vai dar tudo certo’. Depende, pode não dar.”

Outra integrante desse movimento “desmotivacional” é Luiza Voll, sócia da plataforma de conteúdo e mídia Contente, que lançou uma reflexão no Instagram sobre o “conto da história única”. No desabafo, ela menciona o perigo de confiar em narrativas únicas ensaiadas por coaches: conquistas acompanhadas de fórmulas ou receitas, sem levar em consideração a desigualdade social e a realidade de cada pessoa.

Os efeitos colaterais, mesmo que não sejam perceptíveis de forma imediata, afetam a autoestima a longo prazo. Isso porque, como escreveu Voll no post, “nos culpamos, nos sentimos inferiores e podemos até achar que tem algo errado com a nossa vida”. 

Esse traço também tem relação com o conceito de fábula pessoal, uma característica da adolescência que é levada para a fase adulta. Basicamente, faz acreditar que ninguém enfrenta o drama que estamos encarando. “Então, quando a gente vê outras pessoas e outros movimentos encabeçando esse tipo de conversa, a gente respira e fala: ‘Não, não sou só eu, né?’”

A necessidade de identificação foi repercutida na pandemia, principalmente pela nova noção de tempo, diz ela. “A gente viu uma completa falta de contorno, do início do trabalho, da hora do almoço, de um momento de descanso, das relações. E isso aos poucos nos adoece.” É nesse momento que os memes surgem para quebrar o gelo e gerar uma provocação de que nada é definitivo.

Boas práticas para fomentar o bem-estar

Pensando em blindar ideias sedutoras e abraçar o real, a Contente lançou um guia de boas práticas para fomentar o bem-estar e lidar com as expectativas no ambiente de trabalho. Veja algumas dicas:

  1. Produtividade: Aposte em rotinas de trabalho que mesclem e considerem o seu ritmo, as atividades extraprofissionais (casa, filhos, estudo) e, sobretudo, o seu tempo de descanso
  2. Técnica pomodoro: liste de forma realista as suas tarefas diárias e tente realizá-las em blocos de 25 minutos de trabalho com 5 minutos de descanso para cada bloco finalizado. Ao fim de três ciclos, faça uma pausa maior de 15 minutos
  3. Autocobrança: esse pode ser um fator crucial na sua relação com o trabalho remoto ou híbrido. Lembre-se: nós ainda estamos em um momento atípico e sob condições difíceis de trabalho

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Correções
05/12/2021 | 11h37

Diferentemente do que foi publicado, a pesquisa “Mental Health among Adults during the covid-19 Pandemic Lockdown” não foi produzida, mas sim divulgada pela OMS.

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