A economia e a lentidão da vacina
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A economia e a lentidão da vacina

Com o ritmo de vacinação desigual, os países mais pobres vão ficando para trás comprometendo a retomada das suas economias

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2021 | 19h55

Lá se foi o primeiro trimestre do ano. Convém retomar o pulso da economia para saber a quantas estamos e para onde vamos. E os sinais não são bons.

O Brasil é uma ilha de incertezas em meio a uma economia mundial que mostra forte retomada. Nesta semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou sua avaliação sobre o comportamento da economia global ainda em meio à pandemia e as projeções são promissoras. (A tabela mostra a evolução esperada do PIB em 2021 para alguns países.) Sobre esse tema, as apostas dos investidores também são promissoras, como se vê pelo comportamento do mercado financeiro internacional.

A disparada das cotações em dólares das commodities, especialmente dos minérios e dos alimentos, mostra que a demanda agora aquecida encontrou um mercado global com estoques quase zerados que precisam ser recompostos. O forte despejo de recursos, tanto pelos governos como pelos grandes bancos centrais, com objetivo de empurrar a atividade econômica e a contratação de mão de obra, promete ainda mais dinamismo global nos próximos meses.

Ao mesmo tempo, na maioria dos países industrializados, a vacinação está razoavelmente adiantada. O presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, garante que, ainda neste mês de abril, as vacinas estarão disponíveis para toda a população adulta do país. À medida que a imunização se espraiar, a paradeira tenderá a ficar para trás. A Europa, por exemplo, espera vigorosa retomada das viagens e do turismo no próximo verão, que começa em junho no Hemisfério Norte.

O problema é que a vacinação está muito desigual e a retomada da economia, também. Os países mais pobres vão ficando para trás. E o Brasil vai se retardando mais por desorganização do que por pobreza. Tanto no contra-ataque à covid-19 quanto na economia, enfrenta novos problemas, alguns deles, como desdobramento dos avanços no exterior.

Além do agravamento da situação da saúde, o Brasil deixou suas contas fortemente desarrumadas. O Orçamento da União de 2021 é uma recriação do doutor Victor Frankenstein. 

A nova safra de alta dos juros vai empurrar a dívida pública bruta do País para além dos 100% do PIB. A falta de confiança na política econômica mantém o dólar acima dos R$ 5,50. E há essa inflação de custos que, em boa parte, é consequência do boom das commodities. Ela tira o chão de qualquer planejamento de um orçamento pessoal ou familiar. Basta levar em conta o tamanho do estrago produzido pela evolução maluca do IGP-M, índice mais adotado como critério de correção dos aluguéis, que, em 12 meses, foi de nada menos que 31,10%

Sim, há em contrapartida, o repeteco do desempenho exuberante do agro. Infelizmente, porque pesa menos de 10% no PIB, sua densidade não é lá essas coisas para empurrar a atividade econômica do Brasil, principalmente o setor de serviços (mais de 70% do PIB). Depois do tombo do PIB no ano passado, de 4,1%, bem que se esperava por uma forte reação da atividade econômica neste ano. Mas não há como contar com um avanço do PIB em 2021 no Brasil superior aos 3,7%.

Enquanto a população não for suficientemente imunizada, a demanda no País seguirá fraca, o comércio sofrerá novos baques e, com vendas fracas, da indústria também não se espera grande coisa. A distribuição do necessário auxílio emergencial para a população carente agora retomada deverá produzir efeito colateral ruim: o aumento abrupto da procura por alimentos e novo impacto sobre o custo de vida.

E, atenção, não dá para ignorar as consequências do baixo nível dos reservatórios de água no Centro-Sul. O acionamento das usinas termoelétricas puxará para cima os preços da energia elétrica.

Pior que tudo  é a alienação do governo e dos políticos. Vão esbanjando seu tempo com picuinhas e interesses eleitoreiros, sem olhar para os verdadeiros males que infeccionam a economia, o emprego do trabalhador e o poder aquisitivo da população.

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

 

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