Pedro França/Agência Senado
Nome de Rodrigo Limp estava fora do processo seletivo organizado pela consultoria Korn Ferry. Pedro França/Agência Senado

Eletrobrás escolhe indicado do governo para a presidência e conselheiro pede demissão

Nome de Rodrigo Limp, atual secretário de energia elétrica do Ministério de Minas e Energia, estava fora do processo seletivo organizado pela consultoria Korn Ferry

Marina Aragão, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 03h02

A Eletrobrás informou na noite de quarta-feira, 24, que o seu conselho de administração decidiu, por maioria, recomendar o nome de Rodrigo Limp para ocupar uma vaga no colegiado, "visando o exercício futuro do cargo de Presidente da Companhia". Ele substituirá Wilson Ferreira Júnior, que renunciou no dia 24 de janeiro.

De acordo com o documento, assinado pela diretora Financeira e de Relações com Investidores, Elvira Cavalcanti Presta, Limp foi indicado pelo "acionista controlador", a União, não tendo sido selecionado pela assessoria Korn Ferry. A empresa de consultoria havia sido contratada para o trabalho de seleção dos nomes, iniciado em meados de fevereiro.

No entanto, segundo a companhia, Limp foi avaliado e recomendado pelo Comitê de Pessoas, Elegibilidade, Sucessão e Remuneração, entrevistado e aprovado pelo conselho. "(Rodrigo Limp) atende aos requisitos legais e de qualificação técnica necessários para o cargo", diz a nota. Ele é atualmente secretário de energia elétrica do Ministério de Minas e Energia (MME) e foi diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) entre maio de 2018 e março de 2020.

"Após a devida aprovação pela Casa Civil, o Sr. Rodrigo deverá ser eleito como conselheiro de administração, em assembleia geral ordinária, e, posteriormente, deverá ser eleito, pelo Conselho de Administração, como novo Presidente da Companhia", escreveu a Eletrobrás.

O indicado é formado em Direito pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP); tem MBA Executivo em Administração: Gestão em Empresa de Energia Elétrica pela Fundação Getulio Vargas (FGV),  mestrado em Economia do Setor Público, pela Universidade de Brasília (UNB), pós-graduação em Direito Regulatório de Brasília, também pela UNB, e é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG).

Conselheiro pede demissão

Após a escolha de Rodrigo Limp, Mauro Gentile Rodrigues da Cunha, coordenador do Comitê de Auditoria e Risco Estaturário e membro do conselho de administração da Eletrobrás, pediu demissão, de acordo com um comunicado da companhia publicado também na noite de quarta. Segundo Cunha, há uma “falsa sensação de proteção” criada pela Lei das Estatais, diz Mauro Cunha, ex-presidente da Associação dos Investidores no Mercado de Capitais (Amec) e até anteontem conselheiro da Eletrobrás.

Na carta de renúncia, Cunha fala em “desvio do processo sucessório” e “quebra irremediável de confiança” na governança do conselho. O mercado recebeu bem o nome de Limp, considerado de perfil técnico, embora pouco experiente à frente de empresas. “É de fato um nome bom, mas isso não basta para ser CEO da Eletrobrás, a empresa mais complexa do Brasil. Há um equívoco do governo em achar que pegar o craque da privatização e botar na presidência vai ser bom. A Eletrobrás não roda sozinha”, disse Cunha ao Estadão/Broadcast.

Favorável à privatização da Eletrobrás, Cunha diz que ela não pode ser o único objetivo. “A governança não pode ser jogada no lixo.” Ele diz que a elétrica teve uma guinada cultural com Wilson Ferreira, que Limp sucederá. Ao driblar o processo de sucessão, porém, o conselho vira um “carimbador” de decisões do controlador, critica. "Faço votos para que as sementes de governança plantadas persistam e voltem a florescer, levando a Eletrobrás a novos voos para cumprir seu propósito de dar energia para o desenvolvimento sustentável da nossa sociedade", escreveu.

Três executivos da própria Eletrobrás estavam entre as apostas para assumir a presidência da estatal no lugar de Wilson Ferreira Junior. Antonio Varejão Godoy que é atualmente assistente da presidência da Chesf e foi ex-diretor de Geração da Eletrobrás. Ele começou a trabalhar na companhia em 1985 e foi presidente do Conselho de Administração de Belo Monte. Pedro Luiz de Oliveira Jatobá também estava entre os cotados. Ele é atualmente o diretor de Geração da Eletrobrás e atua em empresas do grupo desde 1980. Presidente interina da companhia desde o último dia 15 de março, a diretora Financeira e de Relações com Investidores, Elvira Cavalcanti Presta, também figurava entre as apostas.

Além desses, uma alternativa bastante ventilada desde o anúncio da demissão de Ferreira Junior foi a do atual presidente do conselho da companhia, Ruy Schneider, oficial da reserva da Marinha. Ele, no entanto, foi nomeado como coordenador da Comissão Temporária de Apoio ao Processo de Sucessão do Presidente da Eletrobrás, além de ter uma outra restrição: já ultrapassou a idade limite de 75 anos definida nas políticas do grupo para a presidência da estatal.

'Meter o dedo na energia elétrica'

O nome do sucessor de Ferreira Júnior ainda não havia sido anunciado e as apostas se dividiam entre aqueles que consideravam mais provável uma solução de mercado e os que avaliavam que a saída seria por um nome de influência mais direta do presidente Jair Bolsonaro.

A segunda opção ganhou força depois que Bolsonaro afirmou que iria "meter o dedo na energia elétrica" e prometeu mais mudanças após a indicação do general Joaquim Silva e Luna para os cargos de conselheiro e presidente da Petrobrás. A declaração provocou quedas expressivas nas ações das companhias.

Na semanda seguinte, Bolsonaro e os ministros da Economia, Paulo Guedes, de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, entregaram pessoalmente ao Congresso Nacional, o texto da MP de privatização da Eletrobrás.

Bolsonaro e a caravana de ministros fizeram a travessia do Palácio do Planalto, onde o presidente despacha, ao Congresso, a pé. A intenção, com o gesto, era sinalizar que o governo não recuou em sua agenda liberal após a intervenção no comando da Petrobrás. O texto foi entregue aos presidentes da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

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Falta de experiência levou recrutadora a rejeitar nome de novo presidente da Eletrobrás

A empresa Korn Ferry foi contratada para buscar um substituto para Wilson Ferreira Junior, mas o próprio governo escolheu Rodrigo Limp; no entanto, escolha agradou ao mercado

Anne Warth, Fernanda Guimarães, Marlla Sabino e Luciana Collet, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 11h25
Atualizado 25 de março de 2021 | 22h20

A indicação pela União do atual secretário de energia elétrica do Ministério de Minas e Energia (MME), Rodrigo Limp, para assumir a presidência da Eletrobrás criou um desgaste em torno da governança corporativa de mais uma estatal, pouquíssimo tempo depois das trocas dos presidentes da Petrobrás e do Banco do Brasil. Isso porque o nome do executivo não passou pelo crivo da recrutadora Korn&Ferry, contratada para buscar um novo presidente para a companhia após a saída de Wilson Ferreira Júnior, que deixou a empresa para assumir a BR Distribuidora.

Apesar disso, a escolha foi bem recebida pelos investidores. Com a leitura de boa parte do mercado financeiro de que Limp atende critérios técnicos, os papéis ordinários da estatal elétrica avançaram 4,96%, enquanto os PNB subiram 3,62%. “Por mais que o processo seja questionado e visto negativamente pelo mercado, a indicação de um nome técnico e que possui um bom trânsito no meio político eleva o humor dos analistas para que possa ocorrer a capitalização da companhia”, afirmou o time de analistas da Ativa Research.

Os analistas do banco JP Morgan também apontaram a escolha de Limp como positiva para o processo de privatização, uma vez que o nome indicado pelo governo tem tanto credenciais técnicas como trânsito no mundo político. Para João Pimentel, analista do BTG Pactual, a indicação é bem-vinda, apesar de o nome de Limp não constar na lista originalmente elaborada pela consultoria Korn&Ferry. “É um nome muito técnico, apesar de não ter experiência em gestão empresarial”, acrescentou.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, foi a falta de experiência no comando de uma empresa que levou a Korn&Ferry a rejeitar o nome Limp para o cargo. Mesmo não estando na lista, o executivo “foi avaliado e recomendado pelo Comitê de Pessoas, Elegibilidade, Sucessão e Remuneração, entrevistado e aprovado, por maioria, pelo Conselho de Administração, e atende aos requisitos legais e de qualificação técnica necessários para o cargo”, informou a Eletrobrás.

Limp é formado em direito e engenharia elétrica e coleciona especializações: em gestão de empresa de energia elétrica, tem mestrado em economia do setor público e em direito regulatório. “O Rodrigo é muito bom. Mas a Eletrobrás é a empresa mais complexa do Brasil e ele nunca administrou uma empresa”, disse uma fonte, que acompanhou de perto o processo.

Perfil

Com perfil técnico, Limp foi servidor de carreira da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e, depois, consultor legislativo da Câmara dos Deputados. Se falta a ele experiência na gestão e administração de empresas, sobra no mundo político. De consultor, passou a diretor da Aneel e a secretário do MME, posições em que o trânsito com o poder é fundamental.

Dado seu histórico, profissionais do setor elétrico e analistas de mercado consideraram Limp uma boa indicação para o momento da Eletrobrás, em seu desafio de efetivar a capitalização, que passa pelo convencimento dos parlamentares. “Limp é um bom nome porque veio do Congresso, é consultor parlamentar concursado, é respeitado e ouvido por diversos parlamentares, sabe como funciona a Casa e pode fazer a diferença nesse momento da capitalização”, afirmou o presidente da Associação dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres (Abrace), Paulo Pedrosa, que foi secretário-executivo do MME quando se desenhou a primeira proposta de capitalização da Eletrobrás.

Um analista de mercado de um grande banco estrangeiro, que falou na condição de anonimato, considerou Limp uma boa solução, mas admite que a análise fica prejudicada pela falta de conhecimento sobre quais profissionais estavam sendo considerados pela Korn&Ferry. “Definitivamente, o nome parece correto, mas claramente o processo podia ser menos atribulado se soubéssemos as opções”, disse.

Gabriel Francisco, da XP, diz que não houve violação de regras de governança, uma vez que a contratação da consultoria externa independente é uma “possibilidade” prevista no estatuto, e não uma obrigação. “Positivo não foi (o ruído e a saída de Mauro Cunha) e é um desgaste certamente, mas o balanço final ainda é positivo”, disse.

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