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S&P mantém rating do Brasil, mas sinaliza que pode cortar nota

Agência de classificação de risco revisou perspectiva do rating de estável para negativa, o que significa que País pode perder em breve o grau de investimento

Francine de Lorenzo e Mateus Fagundes, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2015 | 13h29

(Texto atualizado às 14h40)

SÃO PAULO - A agência de classificação de riscos Standard & Poor's alterou a perspectiva do rating BBB- do Brasil para negativa, de estável. A nota da agência representa apenas um degrau acima do grau especulativo. Segundo a agência, o Brasil enfrenta desafios políticos e circunstâncias econômicas, apesar das mudanças feitas pela presidente Dilma Rousseff em seu segundo mandato. O Congresso mais hostil também tem dificultado a condução da política econômica, avaliou a analista da instituição responsável por Brasil, Lisa Schineller.

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, disse acreditar que a economia vai melhorar e o País manterá a avaliação de risco favorável.

Em outras duas grandes agências de classificação de risco, a perspectiva também é negativa. Para a Moody's, o rating do Brasil é Baa2, com perspectiva negativa, dois degraus acima do grau especulativo. Para a Fitch, o rating do Brasil é BBB, com perspectiva negativa, e também dois degraus acima do grau especulativo. A última mudança da nota da S&P ocorreu em março de 2014, quando então a agência classificou o risco de títulos brasileiros como BBB-.

O dólar atingiu novas máximas e chegou a R$ 3,43 após a S&P sinalizar que pode cortar o grau de investimento do Brasil em breve. A moeda americana subiu mais de 2% logo depois do anúncio, mas devolveu parte dos ganhos e fechou negociada a R$ 3,37.

Motivos. A S&P avalia que os riscos para o rebaixamento da nota de crédito do Brasil aumentaram desde a última revisão do rating, em 23 de março. "Nós revisamos a perspectiva para negativa porque acreditamos que, apesar das mudanças de política atualmente em curso, que continuamos a acreditar que têm o apoio da presidente, os riscos para sua execução subiram. Em nossa visão, esses riscos derivam das frentes política e econômica", diz a agência.

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'(...) acreditamos que, apesar das mudanças de política atualmente em curso, que continuamos a acreditar que têm o apoio da presidente, os riscos para sua execução subiram', disse a agência S&P em nota
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Segundo a S&P, as investigações em curso do esquema de corrupção na Petrobrás contra pessoas físicas e jurídicas de alto perfil - tanto do setor público quanto privado - levou a um aumento da incerteza política no curto prazo. "Estas investigações independentes são uma prova da estrutura institucional no Brasil, o que contrasta com a de outras economias emergentes", pondera a agência.

A S&P também vê, no curto prazo, uma diminuição da coesão política no Congresso, o que pode causar um risco material para um eventual rebaixamento por causa da possibilidade de gerar "políticas ineficazes".

A agência lembra ainda que a dinâmica complexa entre o PT e o PMDB, que havia diminuído sob a coordenação política do vice-presidente Michel Temer, reapareceu. "Isso gera a perspectiva de apoio no Congresso um pouco menos consistente para aprovar as medidas necessárias de ajuste fiscal, até mesmo um pouco diluído, em comparação com o que já tínhamos observado e esperado no início deste ano", afirma.

A S&P destaca ainda os desafios enfrentados pela presidente Dilma Rousseff para angariar apoio para a "correção de rumo na política" e uma "reviravolta na economia". A agência diz ainda que não trabalha com um cenário base de impeachment de Dilma.

Dificuldade pela frente. A S&P avalia que a chance de que a correção de política enfrente mais dificuldades e que demore para que o Brasil volte a crescer firmemente é maior que 1 em 3. Na visão da agência, a economia brasileira deverá se contrair de forma mais profunda e longa do que o esperado. A S&P estima que o Produto Interno Bruto (PIB) do País encolha 2% em 2015 e não cresça em 2016. É esperado apenas um modesto avanço em 2017, diz a agência, sem citar números.

A S&P afirma ainda que a vulnerabilidade externa do Brasil vai crescer nos próximos anos. Os investimentos estrangeiros diretos, de acordo com a agência, não devem cobrir completamente o déficit em conta corrente de cerca de 4% do PIB entre 2015 e 2017. A agência observa que, apesar do déficit em conta corrente mais amplo, o Brasil tem baixa necessidade de financiamento externo comparado a seus pares, devido, em grande parte, ao seu alto nível de reservas internacionais.

Entretanto, a S&P enfatiza que poderá rebaixar o rating BBB- do Brasil caso haja maior deterioração externa e fiscal. "Ao longo dos próximos anos, falhas em avançar nos ajustes fiscal e de outras políticas poderão resultar em erosão maior do que o esperado no perfil financeiro do Brasil e maior erosão da confiança e das perspectivas de crescimento, que poderão levar a um rebaixamento", destaca a agência.

A S&P prevê que a dívida pública (líquida de ativos, sem incluir reservas internacionais) deve subir para 53% do PIB em 2015, de 47% do PIB em 2014. Para a agência, a dívida pública média deve ser de 58% do PIB entre 2016 e 2017. No que se refere aos dados fiscais, a S&P espera que o déficit nominal suba para 7,5% do PIB em 2015, de 6,1% em 2014, e desacelere para 5,2% do PIB em 2017.

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