Werther Santana/ Estadão
B3, a Bolsa de Valores de São Paulo Werther Santana/ Estadão

Bolsa despenca 3% e dólar sobe a R$ 5,42 com aversão aos riscos aqui e no exterior

Ibovespa registrou maior perda desde 8 de setembro; avanço da inflação global e chance de prorrogação do auxílio emergencial afetaram os ganhos do mercado hoje

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 14h45
Atualizado 28 de setembro de 2021 | 19h16

O clima desfavorável no exterior, diante da situação econômica da China, a espera pela redução das medidas de estímulos nos Estados Unidos e o avanço da inflação global, encontrou um cenário local também pouco favorável, com chance de prorrogação do auxílio emergencial e risco de intervenção na política de preços da Petrobras. Em resposta, nesta terça-feira, 28, a Bolsa brasileira (B3) fechou com forte queda de 3,05%, aos 110.123,85 pontos, na maior perda desde 8 de setembro. No câmbio, o dólar subiu 0,85%, a R$ 5,4243, no maior recuo desde 4 de maio deste ano.

No exterior, o dia foi de forte recuo para os mercados. Na Europa, a Bolsa de Londres recuou 0,51%, Paris, 2,17% e Frankfurt, 2,09%. Em Nova York, a Nasdaq despencou 2,83%, enquanto S&P 500 baixou 2,04% e o Dow Jones, 1,63%. O cenário de aversão aos riscos vem em linha com a alta da inflação global, diante da escassez de insumos, problemas de energia e aumento dos preços que, para complicar, ainda vêm acompanhados de uma redução no ritmo do crescimento das principais economias do mundo. 

O risco de uma crise energética, devido ao recuo nos estoques de carvão, é um dos fatores que motivaram, hoje, uma série de revisões para o crescimento o Produto Interno Bruto (PIB) da China neste ano. A Nomura, por exemplo, agora espera que a China cresça 7,7% em 2021. Antes, sua projeção era de alta de 8,2%. Já o Goldman Sachs também cortou sua projeção para 2021, de 8,2% para 7,9%. O país enfrenta outros obstáculos, como a crise da Evergrande.

Já dos Estados Unidos, veio a perspectiva de que a forte inflação já afeta a recuperação da economia. Com isso, investidores estão preocupados sobre quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) irá começar a agir, principalmente após o presidente do Fed, Jerome Powell, sinalizar hoje que os EUA ainda "estão longe" de atingir o máximo emprego, condição vista como essencial para o início da retirada dos estímulos e elevação dos juros, mecanismos que ajudam a controlar a inflação.

"A confiança do consumidor está caindo em um momento em que os preços da energia estão subindo, as cadeias de suprimentos estão cedendo e o inverno está no horizonte", alerta o analista-chefe da CMC Markets, Michael Hewson. Para o economista, há um retorno do temor de inflação nos EUA. 

"Os investidores estão atentos ao cenário de alta das taxas de juros pelo mundo - já se conversa sobre isso e sobre a redução dos programas de estímulos monetários, em meio às preocupações com a inflação global", diz Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos.

A inflação também foi assunto por aqui. A ata do Copom manteve a sinalização de ajuste da Selic ao ritmo de 1 ponto porcentual por reunião, pelo intervalo que o Banco Central julgar necessário. Parte do mercado leu a ata como porta aberta para ajuste até mais intenso no ritmo de alta da taxa básica de juros, em terreno já contracionista na avaliação do BC, acima do nível considerado neutro pela instituição - mas que pode ir além, a "um nível significativamente contracionista", apontou o Copom na ata desta terça-feira.

Em setembro, "teve a crise político-institucional e, quando começou a deixar de incomodar tanto, vieram as preocupações sobre a economia chinesa, a correção do minério de ferro, os problemas da Evergrande e agora também a inflação global", observa Lucas Mastromonico, operador de renda variável da B.Side Investimentos.

O noticiário local também pesou hoje. No cenário fiscal, o governo depende da aprovação do projeto do Imposto de Renda para financiar o novo Bolsa Família, batizado de Auxílio Brasil, em 2022. No entanto, enquanto o projeto ainda está parado no Senado, outras opções estão sendo consideradas. A possibilidade de prorrogação do auxílio emergencial, fora do teto de gastos, por exemplo, já é estudada pelo governo. Ontem, o ministro da Cidadania, João Roma, disse que a chance de estender o programa "está na mesa". "É preciso que haja um esforço do Estado brasileiro para proteger 25 milhões de cidadãos”, disse.

Além disso, a Petrobras voltou ao noticiário. Hoje, a estatal reajustou em 8,9% o preço do diesel, um dia após o presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, dizer que não tem intenção de mexer na política de preços da empresa. Em resposta, em evento ao lado de Jair Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL) cobrou a participação dos governadores na luta contra o avanço dos preços dos combustíveis, alinhando-se ao que vem defendendo o presidente. "Sabe o que é que faz o combustível ficar caro? São os impostos estaduais", disse.

Ele disse ainda que o Congresso vai debater um projeto para fixar valor do ICMS. Bolsonaro, que ontem havia dito que o "remédio para combater a inflação não pode ser só aumentar a taxa de juros", afirmou que ficou feliz em ouvir as palavras de Lira e que a alta dos combustíveis "é o problema do dia". Em resposta, as ações da petroleira, que subiam após o anúncio de reajuste, passaram a cair e fecharam em queda de 0,86% para a ON e 0,66% para a PN.

Entre as ações, Vale ON caiu 5,01%, Usiminas PNA, 7,27% e CSN ON, 7,84% - o recuo vem na esteira do recuo de 6,08% do minério de ferro no exterior, após subir 7,17% ontem. Na mínima do dia, o Ibovespa bateu nos 109.980,95 pontos - menor nível intradia desde 21 de setembro. Ele acumula queda de 2,79% na semana, 7,29% em setembro e 7,47% no ano.

Câmbio

A combinação de fortalecimento global da moeda americana, em dia marcado por forte correção dos ativos de risco no exterior, com temores de medidas populistas na seara fiscal doméstica, castigaram o real na sessão desta terça. No pior momento, a moeda americana chegou a tocar casa de R$ 5,45, ao registrar máxima a R$ 5,4508, alta de 1,34%. 

Foi o quinto pregão seguido de fortalecimento do dólar, que já acumula valorização de 1,51% na semana e de 4,88% em setembro. Já o dólar futuro para outubro fechou em alta de 0,66%, a R$ 5,4325.

Nas mesas de operação, já se especula em torno da possibilidade de que o Banco Central possa agir de forma mais incisiva para conter a depreciação do real. Está programado para amanhã o segundo leilão extra de swap cambial (venda de dólares no mercado futuro), da ordem de US$ 700 milhões.

A tensão no mercado acionário, somado as projeções de que o Fed deve cortar os estímulos, em especial subir os juros, já no segundo semestre de 2022, aumentou a procura pela renda fixa americana, o que também pressionou ainda mais o dólar. Hoje, os rendimentos dos papéis do Tesouro americano com vencimento para dez e trinta anos subiram 1,542% e 2,090% cada.

Não bastasse o enxugamento da liquidez global com o tapering, os ativos emergentes, como o real, sofrem com o risco de desaceleração da China. Um pouso forçado da economia chinesa é má notícia para os preços das commodities e, por tabela, para a moeda brasileira. /LUIS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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Mercados despencam diante de recuo nas projeções de crescimento da economia da China

País, que enfrenta diversos obstáculos internos, além da crise da Evergrande, pode fechar o ano com crescimento abaixo do esperado; retirada dos estímulos nos Estados Unidos também preocupa

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 17h35

O cenário foi pouco favorável para os principais índices do exterior nesta terça-feira, 28, diante do recuo da perspectiva de crescimento da economia da China, da incerteza de quando os Estados Unidos vão iniciar a redução dos estímulos e do avanço da inflação global. O único beneficiado foi o petróleo, com o Brent atingindo o maior valor em três anos.

Cortes no fornecimento de eletricidade, em meio à uma redução no estoque de carvão, e os esforços de Pequim para cumprir as metas de redução de consumo de energia e de emissões de carbono estão levando os economistas a revisar para baixo suas previsões de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) chinês neste ano.

A Nomura, por exemplo, agora espera que a China cresça 7,7% em 2021. Antes, sua projeção era de alta de 8,2%. Já o Goldman Sachs também cortou sua projeção para 2021, de 8,2% para 7,9%. Os números vem abaixo das projeções de crescimento para o país feitas no início do ano. Dados oficiais mostraram também que o lucro do setor industrial chinês segue aumentando, mas em ritmo mais lento. 

O banco Wells Fargo afirma que as notícias econômicas vindas da China "continuam mistas, o que sugere alguma pressão de baixa sobre a perspectiva para o crescimento" do país. Em relatório sobre a perspectiva internacional, o banco destaca também certa instabilidade nos mercados, diante do quadro no mercado imobiliário e das preocupações com a incorporadora Evergrande. Para o banco, isso pode colaborar para uma tendência de fortalecimento do dólar para o restante de 2021.

Problemas energéticos são vistos também na Europa, onde as contas de luz deram um salto recentemente. Dependentes do uso de gás natural para geração de energia elétrica, os países da região foram afetados pelo aumento no preço do combustível fóssil, que é resultado do descompasso entre oferta e demanda. O economista Aldren Vernersbach, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que a região precisa diversificar as fontes de energia antes de acelerar a transição energética.

'A confiança do consumidor está caindo em um momento em que os preços da energia estão subindo, as cadeias de suprimentos estão cedendo e o inverno está no horizonte", alerta o analista-chefe da CMC Markets, Michael Hewson. Para o economista, há um retorno do temor de inflação. 

A disparada dos preços vem sendo acompanhada de perto por investidores, principalmente diante da alta dos preços que assola as maiores economias do mundo e também da escassez de matérias primas. Como se não bastasse, esses fatores são acompanhados pela percepção de a atividade está desacelerando.

Nos EUA, por exemplo, a percepção é a de que a inflação já afeta a retomada da economia americana. Enquanto isso, investidores se preocupam sobre quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai cortar os estímulos, principalmente após Jerome PowellJerome Powell, presidente da entidade, dizer os EUA ainda "estão longe" de atingir o máximo emprego, condição vista como essencial para um aperto nos estímulos.

A fala deixou os investidores confusos já, que na semana passada, Powell sinalizou que o aperto no programa de compra de ativos, o 'tapering', poderia começar em novembro. A falta de certeza pesou nos ativos de risco, mas a renda fixa americana, diretamente beneficiada pela alta dos juros e redução da compra de ativos, teve um dia positivo, precificando chance de retirada nos estímulos já no segundo semestre de 2022. Hoje, os rendimentos dos papéis do Tesouro americano com vencimento para dez e trinta anos subiram 1,542% e 2,090% cada.

Bolsa de Nova York

O impasse sobre o início do tapering e o bom desempenho da renda fixa azedaram o humor de Nova York, com os índices registrando fortes perdas. O Nasdaq teve queda de 2,83%, enquanto S&P 500 baixou 2,04% e o Dow Jones, 1,63%.

A alta da renda fixa pesou diretamente sobre os papéis de tecnologia, mais sensíveis a uma piora das condições de financiamento. As ações da Apple cederam 2,38%, as da Amazon recuaram 2,64% e as da Microsoft registraram perda de 3,62%.  

Bolsas da Europa

O dia também foi de forte queda para o mercado europeu. O índice Stoxx 600 cedeu 2,18%, enquanto a Bolsa de Londres recuou 0,51%, Paris, 2,17% e Frankfurt, 2,09%. Os índices de Milão, Madri e Lisboa despencaram 2,14%, 2,59% e 1,13% cada.

Bolsas da Ásia

As perdas foram mais contidas no mercado asiático, que ainda tenta se recuperar do estrago causado pela Evergrande, cujas ações subiram 4,7% e ajudaram o índice de Hong Kong a ganhar 1,2%. A Bolsa de Tóquio caiu 0,19%, enquanto Seul recuou 1,14% e Taiwan, 0,76%. Na China, o índice de Shenzhen caiu 0,18%, mas o de Xangai subiu 0,54%.

Na Oceania, a bolsa australiana ficou no vermelho, em queda de 1,47%, após números fracos do setor varejista mostrarem que lockdowns motivados pela pandemia continuam a prejudicar a economia doméstica.

Petróleo

Os contratos futuros do petróleo fecharam sem sinal único nesta terça. O movimento seguiu uma cautela generalizada no mercado, em meio a preocupações com os cortes de energia na China e a redução dos estímulos nos EUA. A maior busca pelo dólar também pressionou o ativo. No lado positivo, o Brent para novembro avançou 0,55% em Londres, a US$ 79,09 o barril, chegando a ultrapassar a marca de US$ 80, maior patamar em três anos. Em contrapartida, o WTI para o mesmo mês recuou 0,21% em Nova York, a US$ 75,29 o barril.

Edward Moya, analista da Oanda, observa que os preços caíram depois o Brent ultrapassou a marca de US$ 80, o que pode ter incentivado alguma realização de lucro. O economista também pontua que o avanço dos rendimentos da renda fixa americana  favoreceu a alta do dólar. A expectativa, porém, é que a fraqueza nos preços da commodity energética "não dure muito".

A alta nos preços do petróleo ocorrem na esteira dos estragos deixados pelo furacão Ida no Golfo do México. A expecativa é que a produção demore alguns meses para se estabilizar, afetando a oferta do ativo, em um momento no qual a demanda ainda é afetada pela pandemia. /MAIARA SANTIAGO, ILANA CARDIAL, IANDER PORCELLA E SÉRGIO CALDAS

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