Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Ações do BB fecham em queda com chance de André Brandão deixar presidência do banco

Atual presidente do Banco do Brasil sinalizou a interlocutores nesta sexta que pode deixar o cargo; em resposta, papéis do banco caíram 4,9% e Bolsa teve baixa de 2%

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 16h45
Atualizado 26 de fevereiro de 2021 | 18h53

As ações do Banco do Brasil fecharam em queda de 4,92% na Bolsa brasileira no pregão desta sexta-feira, 26, após André Brandão sinalizar que quer deixar a presidência do banco. No câmbio, o dólar fechou em alta de 1,66%, a R$ 5,6055, em sessão marcada pela fuga de investidores dos países emergentes, após a alta nas taxas de retorno dos títulos do Tesouro americano, considerados os ativos mais seguros do mundo.

A queda das ações do BB também prejudicou o desempenho da Petrobrás, que já havia sido duramente penalizada no começo da semana pela ingerência de Bolsonaro na petroleira. Hoje, os papéis ON e PN da estatal caíram 3,11% e 4,10% cada. Na mesma linha, as ações ON e PNB de Eletrobrás recuaram 3,08% e 3,13%, respectivamente. O movimento também pesou no Ibovespa, que fechou em queda de 1,98%, aos 110.035,17 pontos, após cair pontualmente aos 109 mil pontos na mínima do dia. Com o resultado de hoje, o índice fecha a semana com queda de 7,09%, a maior desde outubro. No mês, a perda é de 4,37% e no ano, de 7,55%.

Brandão está há apenas cinco meses na presidência do banco público, mas teve de enfrentar uma dura crise após Bolsonaro desaprovar o plano de reestruturação que ele propôs para o BB, com medidas que envolviam o fechamento de 112 agências e o desligamento de 5 mil funcionários, por meio de programas de demissão voluntária. Nos bastidores, Bolsonaro chegou a pedir a demissão de Brandão, mas Guedes trabalhou para mantê-lo à frente do banco.

"Diante de novos rumores (sobre o BB) e o caso Petrobrás, o mercado já coloca na conta mais uma intervenção estatal e penaliza o índice, assim como inclina ainda mais a curva de juros", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. "O Ibovespa iniciou a semana perdendo pontos de suporte importantes, como o de 118 mil e o fundo anterior, de 114.800. Se seguir com força vendedora, o próximo suporte se dá na região de 109.500 pontos", aponta a analista gráfica Pam Semezzato, da Rico Investimentos.

Para o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, ao mudar o comando na Petrobrás, Bolsonaro conseguiu provocar uma crise de confiança no mercado. "Nosso problema hoje é mais político do que econômico." Assim, mesmo o presidente sinalizando novas privatizações, como Correios e Eletrobrás, o mercado financeiro e os investidores internacionais estão "assolados por uma crise de desconfiança" de como será o comportamento futuro do governo em relação a intervenções.

Desde a última sexta-feira, quando ficou clara a intenção do presidente Bolsonaro de interferir na gestão da Petrobrás para impedir aumentos "excessivos" nos preços dos combustíveis, o Ibovespa passou a terreno negativo no mês, coincidindo com a retirada de recursos estrangeiros na Bolsa.

"Fevereiro não foi tão ruim para a Bolsa se considerarmos também as 12 ofertas públicas ocorridas no mês, trazendo investidores. Mas temos nossos problemas: não apenas a situação fiscal mas a persistência da pandemia, com prorrogação ou retomada de lockdown, que afeta diretamente a economia doméstica. É o que temos observado recentemente no comportamento de ações com exposição à atividade interna, como as de varejo", diz Rodrigo Friedrich, head de renda variável da Renova Invest.

Câmbio

No câmbio, o real foi pressionado pela fuga de investidores para os títulos do Tesouro americano, cujos rendimentos bateram recorde ontem. A perspectiva de retomada da economia americana, que deve vir acompanhada do aumento da inflação nos EUA, faz crescer o interesse dos investidores por esse tipo de ativo, já que quanto mais alta a inflação, melhor será o rendimento. E como os títulos públicos americanos são considerados a forma de investimento mais segura, esse movimento também gerou tensão também na Bolsa brasileira. 

Para aliviar o preço da moeda, o Banco Central vendeu US$ 1,5 bilhão no mercado à vista em dois leilões. mas o resultado foi apenas pontual, com a moeda recuando para R$ 5,58. Com o desempenho de hoje, o dólar fechou fevereiro acumulando alta de 2,4%, segundo mês consecutivo de valorização. No ano, o ganho do dólar ante o real é de 8%, o que mantém a moeda brasileira no topo de pior desempenho dos emergentes. O dólar para abril fechou em alta de 1,25%, a R$ 5,6095.

"O Brasil vem caminhando cada vez mais para ser o patinho feio dos emergentes", afirma o sócio-diretor da Galapagos WM, Arnaldo Curvello. Ele comenta que o ambiente de maior estresse no exterior chega ao País em momento de muita incerteza doméstica. "É preocupante, estamos muito mal posicionados", disse ele, destacando que a falta de sintonia e comunicação no governo deixa tudo ainda mais volátil e incerto. "Não está claro para onde o barco está indo."

Curvello, da Galapagos, destaca que o fator que poderia reverter este quadro negativo é um choque de expectativas. "Aí acontece o que aconteceu [com a Petrobrás], com uma atitude de interferência que o mercado odeia, isso não ajuda muito a trazer a confiança de volta" Com exceção da alta das commodities e da conta corrente, que tem mostrado melhora nos últimos meses, todas as outras variáveis estão pesando contra o real. "Normalmente quando as commodities sobem, o câmbio ajuda a inflação, agora não está ajudando."

Nesta sexta, o Bradesco elevou a projeção para o dólar e a inflação oficial no fim deste ano, conforme relatório divulgado hoje. A estimativa para a taxa de câmbio passou de R$ 5,00 para R$ 5,30./ LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E MAIARA SANTIAGO

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