Werther Santana/Estadão - 10/6/2020
Funcionário de loja no centro de São Paulo mede a temperatura dos clientes no dia da reabertura do comércio, em junho. Werther Santana/Estadão - 10/6/2020

PIB tem queda histórica de 9,7% no 2º trimestre e confirma recessão

Sob efeito da pandemia, atividade econômica registrou dois trimestres seguidos de retração, o que não acontecia desde 2016

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 09h04
Atualizado 02 de setembro de 2020 | 01h17

RIO - As expectativas em relação ao desempenho da economia brasileira em 2020 até melhoraram, após a divulgação de dados mais recentes, de junho e julho, mas a pandemia de covid-19 levou a um tombo histórico no Produto Interno Bruto (PIB, o valor de tudo o que é produzido na economia) do segundo trimestre, assim como ocorreu em praticamente todos os países, confirmou nesta terça-feira, 1.º, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A retração de 9,7% em relação aos três primeiros meses do ano é a maior da atual série histórica do IBGE, iniciada em 1996, mas, segundo cálculos de pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), não há registro de um trimestre com desempenho pior desde 1980.

Foi também o segundo trimestre de retração - a queda do primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2019 foi revisada para 2,5%, ante o 1,5% inicialmente informado -, primeira vez que isso ocorre desde 2016. As duas retrações seguidas caracterizam uma “recessão técnica”, classificação comumente usada no mercado financeiro, embora o comitê independente da FGV dedicado a analisar os ciclos econômicos já tivesse marcado o início da recessão no primeiro trimestre.

A queda do PIB no segundo trimestre foi tão pior do que em outras crises porque “nunca antes se propôs uma política que fosse desligar a economia”, diz Eduardo Zilbermann, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, numa referência às regras de restrição ao contato entre as pessoas, como forma de estancar o avanço da covid-19. Em outras crises econômicas - causadas por inflação, desequilíbrios nas contas externas ou bolhas financeiras, etc. -, as empresas entram em dificuldade, suspendem investimentos e demitem funcionários, ou a renda das famílias é corroída, e elas consomem menos.

Assim, nas outras crises, as lojas vendem menos do que o normal, amargam receitas menores, mas seguem vendendo. Indústrias veem a demanda caindo, o estoque começa a encalhar nas fábricas e reduzem a produção, mas seguem produzindo. Só que o “desligamento” provocado pela pandemia fechou lojas, que não podiam receber clientes, e fábricas, que não podiam aglomerar trabalhadores. Vendas e produção foram para perto de zero.

Como explica Zilbermann, o PIB é uma medida de fluxo, de quanto se produz continuamente ao longo do tempo. Assim, mesmo que a parada para valer tenha ocorrido em abril, o fundo do poço da economia, a reabertura gradual a partir de maio e junho foi insuficiente para salvar o PIB do segundo trimestre, formado por essa produção contínua em cada um dos meses.

O quadro catastrófico só não foi pior por causa das medidas adotadas pelo governo para mitigar a crise, com destaque para o auxílio emergencial de R$ 600 ao mês pago aos mais pobres e aos trabalhadores informais. Desde junho, estudos têm apontado que os pagamentos de emergência chegaram a elevar a renda dos mais pobres, reduzindo, temporariamente, a pobreza. Ainda assim, esse impulso não impediu o tombo de 12,5% no consumo das famílias ante o primeiro trimestre. 

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, que, em maio, chegou a estimar uma retração de 17,3% no PIB do segundo trimestre, já havia revisado sua projeção, na semana passada, para uma queda de 9,7%. Além do impulso do auxílio emergencial no consumo, contribuíram para a melhora do quadro, na visão de Vale, a baixa adesão dos brasileiros à quarentena, que manteve alguns comércios funcionando, e o crescimento do agronegócio. O PIB da agropecuária teve o melhor desempenho entre os componentes da oferta, com alta de 0,4% ante o primeiro trimestre.

“Há commodities que não são agrícolas, mas também se beneficiaram do aumento da demanda chinesa e do câmbio, como minério de ferro e também petróleo, num grau menor. Se você junta esses segmentos todos, estamos falando de 35% a 40% do PIB com retorno positivo no primeiro semestre”, afirma Vale.

Ainda pelo lado da oferta, os serviços, que respondem por cerca de 70% do PIB, encolheram 9,7% em relação ao primeiro trimestre, e a indústria tombou 12,3%. Com as empresas adiando compra de maquinário e obras suspensas, a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida dos investimentos no PIB) despencou 15,4% em relação aos três primeiros meses do ano.

Os rumos a crise

No cenário de Bráulio Borges, economista sênior da LCA Consultores, a dinâmica global da recessão poderá ditar os rumos da crise. O fato de todas as economias do mundo terem sido atingidas, de forma semelhante e mais ou menos ao mesmo tempo - apenas a China, onde a covid-19 surgiu, foi atingida um pouco antes -, é uma das características inéditas da crise. Para ele, a recuperação poderá acabar sendo ditada pela dinâmica internacional, que, por sua vez, é marcada pelas medidas de mitigação adotadas pelos principais países.

Por isso, na visão de Borges, o desempenho da economia no Brasil poderá ser melhor do que o dos vizinhos da América Latina, porque os brasileiros não respeitaram a quarentena e pela falta de coordenação na ação dos governos federal e locais - ao custo de mais mortes pela covid-19 - e por causa do tamanho das medidas emergenciais. Nas contas do Observatório de Política Fiscal do Ibre/FGV, as políticas do governo federal somam 11,5% do PIB - 8,27% do PIB em ações com gastos fiscais e 3,21% do PIB em medidas de “crédito fiscal”, voltadas para empréstimos. O pacote está praticamente no mesmo nível do dos Estados Unidos, que soma 11,6% do PIB.

“O pacote de suporte fiscal no Brasil foi muito elevado. Até mais elevado do que se poderia imaginar, dada a situação fiscal”, afirma Borges.

Para Zilbermann, da PUC-Rio, a economia brasileira está numa “encruzilhada”. Por um lado, no momento mais imediato, as medidas emergenciais impulsionam a economia e podem ajudar na recuperação nos próximos meses. Por outro lado, os gastos públicos associados às medidas ameaçam o equilíbrio fiscal nos próximos anos. Desequilíbrios poderão elevar o risco país e a cotação do dólar e afastar investidores, o que tiraria ímpeto da recuperação da economia. A saída, segundo o professor, seria o governo sinalizar claramente que a elevação de gastos é temporária, tem data para terminar, e que o equilíbrio das contas voltará no médio prazo.

'CHACOALHÃO'

Em mais de meio século de funcionamento, a Esquina do Fuad, tradicional restaurante do bairro paulistano de Santa Cecília, nunca tinha passado por nada parecido. Nem ele, nem os milhões de empreendedores espalhados pelo País. A queda de quase 10% da atividade econômica causada pelo confinamento exigido pela pandemia restringiu, de uma hora para outra, a operação do restaurante, que passou a trabalhar só por meio de entregas (delivery). “O segundo trimestre foi o pior em 54 anos, com queda de 20% no tíquete médio”, afirma o proprietário Denis Nery.

Para Lucas Furlani, dono de duas franquias do salão de cabeleireiros Soho, a situação foi pior. Por três meses, abril, maio e junho, os dois salões ficaram fechados. “O segundo trimestre não existiu para a gente, o faturamento foi zero.”

Com a flexibilização da quarentena a partir de julho, os dois empreendedores tiveram de se reinventar. Tanto Nery como Furlani não recorreram a bancos. Reduziram despesas e renegociaram contratos com fornecedores.

Nery focou no delivery, apesar de continuar atendendo presencialmente no restaurante. “A pandemia foi um chacoalhão”, diz o empresário, que tem hoje na entrega de comida um negócio muito maior do que o atendimento no restaurante, embora com uma lucratividade menor. No momento, Nery procura cinco pontos na capital paulista e também na região do ABC para instalar cozinhas e atender às vendas por delivery.

Furlani, que em abril cogitou a possibilidade de fechar definitivamente os salões, agora não pensa mais nisso. “Conseguimos nos ajustar, todos os dias temos tido movimento e estamos proporcionando segurança aos clientes.” Ele admite, no entanto, que não está tendo lucro. “É um privilégio conseguir manter o negócio aberto.”/COLABORARAM CÍCERO COTRIM, MÁRCIA DE CHIARA e GREGORY PRUDENCIANO

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Agronegócio se descola de queda do PIB brasileiro e registra alta de 1,2%

Segundo a Confederação Nacional da Agricultura, resultado poderia ter sido pior se não fosse o auxílio de R$ 600; alta demanda da China também ajudou o setor

André Borges, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 17h14

BRASÍLIA – O setor agropecuário conseguiu se descolar dos números negativos do Produto Interno Bruto (PIB) registrados no segundo trimestre e apresentou crescimento de 1,2% sobre o mesmo período de 2019. Apesar de menor demanda doméstica, em decorrência do impacto da crise econômica causada pela covid-19, a produção agropecuária nacional seguiu em rota positiva.

Os destaques da produção agropecuária brasileira no início de 2020 têm sido a soja (5,9%), o arroz (7,3%) e o café (18,2%), conforme as estimativas mais atuais da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Segundo a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), porém, a seca na região sul, principalmente Rio Grande do Sul e Paraná, afetou a produtividade, particularmente de soja e trigo, levando à menor produção nessa região, apesar da maior área cultivada.

Na avaliação da CNA, o resultado do setor poderia ter sido ainda pior, não fosse o auxílio emergencial de R$ 600, que minimizou os impactos econômicos na parcela mais vulnerável da população brasileiro, garantindo alguma sustentação de demanda, particularmente de alimentos e outros bens de consumo básicos.

O consumo das famílias brasileiras, que já vinha crescendo muito modestamente em 2019, observou retração de 0,7% no 1° trimestre de 2020 e de 13,5% no 2° trimestre, sempre comparativamente ao mesmo período de 2019.

Fora do Brasil, fatores como a peste suína africana na China e o impacto da covid-19 no processamento de carne dos Estados Unidos têm sustentado a demanda internacional por proteínas brasileiras, amenizando os efeitos negativos da menor demanda doméstica pelo produto, especialmente dos cortes mais nobres.

A maior demanda chinesa por soja e carnes brasileiras tem refletido no maior volume de exportações do agronegócio brasileiro para aquele país, e também ajuda a explicar o resultado positivo do PIB agropecuário no 2° trimestre de 2020. Enquanto as exportações brasileiras, no geral, caíram 7,4% no 1°semestre de 2019, as do agronegócio cresceram 9,7%. Só para a China, o crescimento das exportações brasileiras do agronegócio foi de 30,3% no 1°semestre de 2020, frente ao mesmo período de 2019.

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PIB: arsenal anticíclico atenua recessão, mas restrições impedem rápida recuperação

Expectativa para o segundo semestre é de recomposição parcial das perdas recentes

Thiago Xavier*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 17h06

O PIB evidenciou a fragilidade da economia brasileira no segundo trimestre, que concentrou os maiores efeitos da pandemia e do isolamento social. As quedas foram históricas em ambas as métricas de curto prazo, sendo de 9,7% na comparação dessazonalizada e 11,4% em termos interanuais.

Para o segundo semestre, a expectativa é de recomposição parcial das perdas recentes, o que deve ser marcado por dois momentos: inicialmente mais veloz e depois com perda de dinamismo em razão das restrições mais permanentes. No primeiro momento, contam positivamente o cenário de gradual flexibilização do isolamento social e a extensão da vigência de parte do arsenal anticíclico com

impactos positivos para a demanda e oferta (empresas, em especial de menor porte). Nessa linha já são observados sinais positivos de indicadores de alta frequência como fluxo pedagiado de pesados, consumo de energia e confiança dos agentes em julho e agosto).

Por outro lado, há restrições relevantes à manutenção dessa maior velocidade de retomada nos trimestres seguintes, como:

  1. o medo da pandemia que afeta consumo e investimentos,
  2. a fragilidade do mercado de trabalho (reforçado pelos dados da PNAD Covid) e
  3. a situação financeira de pequenas e médias empresas, sobretudo, ligadas à serviços.

Adicionalmente, há outra questão relevante quanto à interpretação dos dados acerca das perdas de receitas dos grupamentos ligados especialmente a serviços das famílias. Por ora, é difícil distinguir qual o tamanho da contribuição da demanda e da oferta para a baixa e, sobretudo, em que medida o subfuncionamento é temporário ou permanente, e como esse quadro será alterado com a retirada de parte das políticas econômicas emergenciais.

De pano de fundo, há também a interdependência da recuperação do crescimento com o cenário fiscal. Aqui reside a tensa relação entre solvência fiscal e recuperação econômica, ainda que esses objetivos não sejam irreconciliáveis, inclusive, porque o fracasso de um pode levar ao insucesso do outro.

Quanto aos destaques do PIB do segundo trimestre chama atenção as disseminadas perdas nos segmentos de serviços, ainda que heterogêneas, sobretudo captando o contraste entre demanda por bens comparada a serviços, o que contribui para entender a queda de Outros serviços (-19,8%, em relação ao primeiro trimestre do ano) acima de comércio (-13,0%).

Pelo lado da demanda, Investimentos (-15,4%) foram os mais afetados, sobretudo, por máquinas e equipamentos do que por construção civil. Algumas evidências sugerem que vendas de materiais de construção foram beneficiadas por microrreformas domésticas, limitando as perdas da FBCF (a medida dos investimentos no PIB).

Por fim, a reação dos investimentos é outra questão importante ao cenário de retomada. Se, por um lado, os juros baixos são estímulos relevantes, por outro, a situação financeira delicada de empresas e famílias é um atenuante, além da ociosidade elevada.

Ainda que pesem dúvidas quanto à interpretação dos atuais resultados e sobre o cenário prospectivo, inclusive inseparável da evolução do quadro epidêmico, algo ainda assim nos parece certo: há um conjunto de fatores que inviabilizam uma rápida em recuperação em “V”.

*Economista da Tendências Consultoria Integrada

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'Isso é impacto do raio que caiu em abril', diz Guedes sobre tombo do PIB

Ministro afirmou que a queda recorde de 9,7% na atividade econômica não preocupa o governo e que recuperação será rápida

Jussara Soares e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 10h21
Atualizado 01 de setembro de 2020 | 16h32

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta terça-feira, 1º, que não causa preocupação ao governo o tombo histórico de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB), no segundo trimestre deste ano na comparação com os três primeiros meses do ano.

"Isso é impacto do raio que caiu em abril", afirmou Guedes, no Palácio da Alvorada, em referência aos impactos da crise do coronavírus na economia brasileira. Ele participou do anúncio da prorrogação do auxílio emergencial até dezembro, ao lado do presidente Jair Bolsonaro e de líderes do Congresso.

Depois, em audiência pública com os parlamentares, o ministro disse que o resultado do PIB divulgado hoje é "som de um passado distante".  “Nós humanos somos átomos que raciocinam. Economia não é uma ciência exata. Como a velocidade da luz é diferente da velocidade do som, você vê um raio muito cedo e o som chega muito depois. É a mesma coisa com a economia”, afirmou. 

Ele completou dizendo que quem previu uma queda de 10% no PIB deste ano “viajou na velocidade da luz” e errou. “Chegou agora o som de uma queda inicial do PIB de 10%. Só que a realidade é outra. É um som de um passado distante. Como a luz das estrelas que nós vemos foram emitidas há bilhões de anos. O que você vê é um registro do passado. Foi esse som que chegou agora”, completou. 

Guedes disse que as estimativas agorapara o PIB de 2020 estão em queda entre 4% e 5%, a metade da queda registrada no segundo trimestre. A projeção oficial é de retração de 4,7%. “O crédito, consumo de energia elétrica, notas fiscais estão todas voltando com dois dígitos. No fim do ano, a queda da economia brasileira pode ser 4% até um pouco menos”, afirmou. 

Os efeitos da pandemia de covid-19 sobre a economia, apesar de percebidos ainda em fevereiro, se intensificaram em todo o mundo a partir de março. Para conter a disseminação da doença e o colapso do sistema hospitalar, o Brasil adotou o isolamento social em boa parte do território, o que afetou a atividade econômica. Os efeitos negativos foram percebidos principalmente em março e abril.

O resultado divulgado nesta terça é a queda mais intensa desde que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) iniciou os cálculos do PIB trimestral, em 1996. Até então, o maior tombo já registrado no País tinha ocorrido no quarto trimestre de 2008 (-3,9%).  Com o desempenho, o Brasil entrou oficialmente em recessão técnica, caracterizada por dois trimestres consecutivos de encolhimento do nível de atividade.

"Isso é de impacto lá atrás. Estamos decolando em 'V'", disse Guedes usando a metáfora para explicar que após uma queda rápida da atividade, deve acontecer também uma alta na mesma intensidade.

Na audiência pública na comissão mista do Congresso Nacional que acompanha a execução das medidas de enfrentamento à pandemia de covid-19, Guedes afirmou que o governo tomou "medidas vigorosas" para o enfrentamento à pandemia, acima da média dos países avançados e quase o dobro dos emergentes.  

“Mais importante do que o resultado do PIB do 2º trimestre é observar que abril foi o piso e já há uma retomada em V. Todo mundo previa essa queda de 10% no 2º trimestre, mas esse é um som distante do impacto da pandemia lá atrás. O Brasil ficaria nessa queda se governo não tivesse aprovado medidas com o Congresso. Com essas medidas, conseguimos criar uma volta em V, a economia está voltando em V”, disse.

Guedes afirmou que o crescimento da economia no próximo ano pode surpreender. Segundo a estimativa que consta da proposta de Orçamento do próximo ano, encaminhada ontem ao Congresso Nacional, o PIB deverá ter uma alta de 3,2% em 2021. “Ano que vem podemos ser surpreendidos com crescimento de 3%, 3,5%, 4% a 4,5%. Só depende de aprovarmos as reformas”, completou. 

Ministério diz que retração foi menor do que em outros países

O Ministério da Economia avaliou que o resultado do PIB do segundo trimestre, embora tenha mostrado retração elevada, foi menor do que "as principais economias" e, também, quando comparado a alguns países emergentes (Chile, México e Índia).

"A redução da atividade está entre as menores em relação as principais economias. Por exemplo, a queda no 2º trimestre nos países do G7, quando comparado ao mesmo trimestre de 2019, foi de -11,9%. Algo semelhante ocorre para os países emergentes como Chile, México e Índia foram de -13,7%, -19% e -23,9%, respectivamente", informou.

De acordo com a análise da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia, essa "menor deterioração" deveu-se ao trabalho conjunto do governo e do Congresso Nacional na elaboração e implementação de políticas econômicas que "suavizassem os efeitos do coronavirus".

"Um dos objetivos de tais medidas foi justamente atenuar os impactos negativos sobre a economia, buscando a preservação dos empregos e à sobrevivência das empresas. Outro propósito das medidas implementadas foi o de limitar o efeito da pandemia para os informais e para as famílias mais pobres, mantendo a renda de muitas famílias brasileiras nesse momento de maior necessidade", acrescentou a área econômica.

Apesar do forte tombo do PIB e início de um novo período recessivo na economia brasileira, o governo informou que dados mais recentes apontam para início de uma recuperação parcial em maio e junho, e "continuidade da retomada" da economia no terceiro trimestre.

Entretanto, o governo avaliou que uma "recuperação pujante" da economia só será possível com a retomada da agenda de reformas e consolidação fiscal (redução do rombo das contas públicas). A área econômica citou a necessidade de aprovar a proposta que modifica a Lei de Falências, do projeto de Lei do Gás e do projeto que cria o Programa de Estímulo ao Transporte por Cabotagem (navegação na costa brasileira), entre outros. /COLABORARAM EDUARDO RODRIGUES E LORENNA RODRIGUES

 

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Mesmo com avanço da produção de petróleo, PIB da indústria tem queda recorde de 12,3%

Na contramão da maioria das atividades econômicas, as indústrias extrativas cresceram 6,8% no segundo trimestre, segundo o IBGE

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 10h51

RIO - O Produto Interno Bruto (PIB) da indústria caiu 12,3% no segundo trimestre de 2020 em relação ao primeiro trimestre de 2020, de acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira, 1º.

Na comparação com o segundo trimestre de 2019, o PIB da indústria mostrou queda de 12,7%.

A maior queda foi na indústria de transformação, com um tombo de 17,5%, enquanto a construção recuou 5,7%. O segmento de produção e distribuição de eletricidade, gás e água diminuiu 4,4%, e as indústrias extrativas caíram 1,1%.

Na contramão da maioria das atividades econômicas, as indústrias extrativas cresceram 6,8% no segundo trimestre, graças ao avanço na extração de petróleo, que mais do que suplantou a perda do segmento de minério de ferro. O resultado ajudou a evitar uma queda ainda maior no PIB da indústria no período.

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Consumo das famílias cai 12,5% no 2º trimestre, aponta IBGE

Auxílios pagos pelo governo impediram retração maior; investimentos recuaram 15,4%, aponta IBGE

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 11h18

RIO - O consumo das famílias caiu 12,5% no segundo trimestre de 2020 em relação ao primeiro trimestre de 2020, segundo dados divulgados nesta terça-feira, 1º, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na comparação com o segundo trimestre de 2019, o consumo das famílias mostrou queda de 13,5%.

Pelo lado da demanda, o consumo das famílias, que representa 65% do PIB, teve a maior queda. “O consumo das famílias não caiu mais porque tivemos programas de apoio financeiro do governo. Isso injetou liquidez na economia. Também houve um crescimento do crédito voltado às pessoas físicas, que compensou um pouco os efeitos negativos”, disse a a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

O consumo do governo, por sua vez, caiu 8,8% no segundo trimestre de 2020 em relação ao primeiro trimestre. Na comparação com o segundo trimestre de 2019, o consumo do governo recuou 8,6%.

Sob efeito da pandemia de covid-19, o Produto Interno Bruto (PIB) do País teve queda histórica de 9,7% de abril a junho. A retração é a maior da atual série histórica do IBGE, iniciada em 1996, mas, segundo cálculos de pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), não há registro de um trimestre com desempenho pior desde 1980.

Para conter o avanço do coronavírus, foram adotadas medidas de isolamento social que levaram as vendas e a produção para perto de zero. Abril é considerado o fundo do poço da crise.

Investimentos

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), a medida dos investimentos do PIB, caiu 15,4% no segundo trimestre de 2020 em relação ao primeiro trimestre de 2020. Ante o segundo trimestre de 2019, a FBCF mostrou queda de 15,2%.

As exportações cresceram 1,8% em relação ao primeiro trimestre de 2020 e 0,5% ante o mesmo período de 2019.

As importações contabilizadas no PIB, por sua vez, caíram 13,2% no segundo trimestre em relação ao primeiro trimestre de 2020. Na comparação com o segundo trimestre de 2019, a queda foi de 14,9%.

A contabilidade das exportações e importações no PIB é diferente da realizada para a elaboração da balança comercial.

No PIB, entram bens e serviços, e as variações porcentuais divulgadas dizem respeito ao volume. Na balança comercial, entram somente bens, e o registro é feito em valores, com grande influência dos preços.

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O Brasil entra em depressão

Cai por terra a narrativa do ministro Paulo Guedes de que a pandemia abateu a economia brasileira quando esta iniciava um robusto processo de crescimento

José Luis Oreiro*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 11h34

Os números divulgados nesta terça-feira, 1º, pelo IBGE para o PIB do segundo trimestre de 2020 mostram a maior queda da série histórica iniciada desde 1996, uma retração de 9,7% com respeito ao primeiro trimestre do ano. O crescimento do primeiro trimestre foi também revisado para baixo, ao invés de uma queda de 1,5% contra o último trimestre de 2019, os dados do IBGE apontam para uma queda de 2,5%.

Considerando que as medidas de distanciamento social começaram a ser adotadas a partir de meados de março de 2020; cai definitivamente por terra a narrativa do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que a pandemia do coronavírus abateu a economia brasileira quando esta iniciava um robusto processo de crescimento. Nada mais longe da verdade: a economia estava em franco processo de desaceleração antes da chegada do coronavírus.

Dado o crescimento medíocre observado no período 2017-2019, a conclusão inescapável é que a tão agenda de reformas não tem tido sucesso no sentido de colocar o Brasil na rota do desenvolvimento econômico.

A ocorrência de dois trimestres consecutivos de queda do PIB define uma recessão técnica. Dada a magnitude da queda do PIB ocorrida nos dois primeiros trimestres de 2020 e o forte estímulo fiscal representado pelo programa de renda emergencial é provável que no terceiro trimestre do ano o PIB apresente um crescimento expressivo. Fala-se de um crescimento de cerca de 5% no terceiro trimestre e de 1,5% no último trimestre.

Mesmo que esse crescimento se materialize, a economia brasileira irá encerrar o ano de 2020 com um PIB quase 6% mais baixo do que o prevalecente no último trimestre de 2019. Nem de longe tal resultado pode ser entendido como uma recuperação em V. Em termos de PIB per capita o resultado será ainda pior: uma queda de quase 7% na comparação com o final de 2019.

Não devemos nos esquecer, contudo, que a economia brasileira, antes da pandemia, ainda não havia se recuperado dos efeitos da crise de 2014-2016. Com efeito, o PIB no final de 2019 ainda era cerca de 5% mais baixo que o do primeiro trimestre de 2014. Dessa forma, a economia brasileira fechará 2020 com um PIB cerca de 11% mais baixo que no início de 2014. Esses números mostram que a economia brasileira se encontra, na verdade, numa depressão.

*Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília, Pesquisador Nível IB do CNPq e Lider do Grupo de Pesquisa "Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento", cadastrado no CNPq. É autor do livro "Macroeconomia do Desenvolvimento: uma perspectiva Keynesiana", LTC: Rio de Janeiro (2016)

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Entenda o que é recessão técnica e o que ela significa para a economia brasileira

Classificação indica a situação em que a atividade econômica de um país, medida pela variação do PIB de um trimestre sobre o período imediatamente anterior, registra duas quedas seguidas

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 09h13

RIO - Além de recorde histórico negativo, o tombo de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, na comparação com os três primeiros meses do ano, marcou o segundo trimestre seguido de retração. A economia está, portanto, em “recessão técnica”, mas, antes mesmo de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar os dados, o Codace, comitê independente da Fundação Getulio Vargas (FGV) que se dedica a marcar os ciclos da economia, já havia registrado o início de uma recessão no primeiro trimestre.

É uma situação atípica, mas os impactos da pandemia de covid-19 logo mostraram que a economia entrou em recessão. Normalmente, os órgãos econômicos independentes que analisam ciclos, como o Codace/FGV, no Brasil, ou o NBER, nos Estados Unidos, levam mais tempo para datar o início das recessões.

O que é recessão técnica

Por causa dessa demora, em análises de conjuntura de curto prazo, os economistas lançam mão da ideia de “recessão técnica”. A definição é simples: é a situação em que a atividade econômica, medida pela variação do PIB de um trimestre sobre o período imediatamente anterior, registra duas quedas seguidas. Só que o termo passa longe dos estudos acadêmicos da teoria econômica e não é encarado como um conceito por pesquisadores.

O que é recessão

A teoria econômica usa o conceito de “recessão”. Segundo o economista Paulo Sandroni, no Novíssimo Dicionário de Economia, recessão é a “conjuntura de declínio da atividade econômica, caracterizada por queda da produção, aumento do desemprego, diminuição da taxa de lucros e crescimento dos índices de falências e concordatas”.

Para o Codace, é “um período de queda generalizada na atividade econômica, com efeitos negativos sobre a maioria dos setores e pessoas em uma economia”, de acordo com Paulo Picchetti, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV e um dos membros do comitê independente.

O NBER define “recessão” como o período entre um “pico” (nível máximo antes de começar a cair) e um “vale” (nível mínimo antes de começar a subir) no ciclo da atividade econômica. Em seu site, o instituto privado, fundado em 1920, informa que não usa a regra das duas quedas trimestrais do PIB para determinar recessões porque considera outros indicadores, como a renda real, emprego, dados mensais e a profundidade da queda na atividade.

Então, da onde vem a ideia de “recessão técnica”? Tudo começa com uma tentativa, de economistas americanos, de identificar quando começa uma recessão - sem esperar pela análise mais cuidadosa, e demorada, de comitês como o Codace e o NBER.

A origem do termo estaria num artigo de 1974, de Julius Shiskin, que foi economista-chefe do Escritório do Censo dos Estados Unidos e professor da Universidade Rutgers, sustentam os economistas Lakshman Achuthan e Anirvan Banerji, cofundadores do Instituto de Pesquisa do Ciclo Econômico (ECRI, na sigla em inglês), em artigo de maio de 2008, publicado no site CNN Money.

Para Achuthan e Banerji, a caracterização de recessões como dois trimestres de queda no PIB é uma “ideia simplista”. O texto de Shiskin, publicado no jornal The New York Times, oferece uma lista de condições que “quase qualquer um pode usar” para definir uma recessão econômica. A primeira condição da lista é justamente registrar duas quedas trimestrais no PIB. Shiskin cita ainda o tamanho da queda no emprego não agrícola e a difusão dessa queda por diferentes setores, mas “ao longo dos anos o resto das regras de alguma forma foi deixado de lado, sobrando apenas a ‘dois trimestres de PIB em queda’”, escrevem Achuthan e Banerji. Para eles, a lista de Shiskin é uma “regra de bolso” e, como tal, “está longe de ser perfeita”.

Tanto o artigo de 1974 quanto o de 2008 foram escritos em momentos em que informações conjunturais da economia americana sugeriam que uma recessão estava em curso - todos se preocupavam em confirmar a ocorrência. Assim, usar a classificação da “recessão técnica” ajuda a dar uma reposta mais rapidamente.

A crise provocada pela covid-19 é diferente, porque não há dificuldade em determinar o início da recessão nas economias de todo o mundo, que pararam por causa da pandemia. A decisão do Codace/FGV de anunciar a recessão antes mesmo de termos os dados oficiais do segundo trimestre se seguiu a movimento semelhante do NBER, que, três semanas antes do comitê brasileiro, soltou comunicado registrando o início de uma recessão nos Estados Unidos em março.

Se foi fácil apontar quando a recessão da covid-19 começou, não basta que a economia volte a crescer para que um País saia do ciclo recessivo. O ineditismo da crise causada pela pandemia é tamanho que, provavelmente, o PIB do terceiro trimestre registrará avanço também recorde, na comparação com o segundo trimestre. Na média, economistas do mercado esperam alta de 5,35% no PIB do terceiro trimestre, conforme pesquisa do Projeções Broadcast feita antes da divulgação dos dados nesta terça-feira, 1º. Se confirmada, será a maior alta da série histórica do IBGE, iniciada em 1996, mas, provavelmente, será insuficiente para recuperar as perdas já registradas, diz Pichetti, membro do Codace/FGV.

“A recuperação pode até parecer rápida, mas será um efeito estatístico. Quando olhamos de tendência, a economia vai estar voltando muito lentamente”, afirma Pichetti.

Por isso, segundo o pesquisador, não será fácil determinar o fim da atual recessão. O Codace/FGV deverá esperar por mais dados, talvez para além do fechamento do ano, para ter mais certeza sobre a firmeza da recuperação.

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Com queda generalizada do PIB, Brasil fica em 22º em ranking de 48 países

Impactos da pandemia colocaram a economia global em recessão; só China e Índia tiveram resultado positivo no segundo trimestre

Daniela Amorim, Mariana Durão e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 12h32

RIO - Apesar da queda histórica de 9,7% no Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, o Brasil ficou na 22.ª posição no ranking internacional de desempenho da atividade econômica com 48 países, compilado pela agência de classificação de risco Austin Rating. Os impactos da pandemia foram generalizados, colocando a economia global em recessão.

Na lista, apenas China (+11,5%) e Índia (+0,7%) aparecem no azul. Epicentro inicial da covid-19, o gigante asiático recuperou o tombo de 10% registrado na economia no primeiro trimestre, como efeito do impacto antecipado da doença em relação ao resto do globo.

Os dados do PIB brasileiro foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que anunciou nesta terça-feira, 1º, os resultados das Contas Nacionais Trimestrais.

Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o fato de o Brasil estar no meio da tabela, após ter ocupado a lanterna por diversas vezes no período recente, sugere que medidas da equipe econômica como o auxílio emergencial, redução dos juros e liberação de liquidez ao sistema financeiro pelo Banco Central surtiram algum efeito.

“Poderia ter sido pior. Mas o País ainda sofre com problemas domésticos antigos. O que faz o Brasil não deslanchar é a questão fiscal e isso não é segredo para ninguém”, diz Agostini. 

Empatado com Alemanha e Tailândia no 22º lugar do ranking, o Brasil ficou logo à frente de uma lista eclética de países como Bulgária (-9,8%), Ucrânia (-9,9%), Áustria (-10,7%), Turquia (-11,0%) e Canadá (-11,5%), entre outros. E imediatamente atrás dos Estados Unidos de Donald Trump, onde o PIB caiu 9,1% no segundo trimestre de 2020. 

O desempenho da economia brasileira foi ligeiramente superior à média global no trimestre, de -9,9%, mas abaixo da média do Brics - grupo formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul -, de 0,8%, impulsionada pela economia chinesa. O País ficou atrás de outros mercados emergentes, como Hong Kong (-0,1%), Taiwan (-1,4%) e Coreia do Sul (-3,3%), o que sinaliza desvantagem na competição por investimentos.

“Há perspectiva de melhora no segundo semestre, mas o governo brasileiro começa a flertar com uma postura assistencialista, o que não é saudável para um País que há seis anos registra déficit primário”, afirma Agostini, destacando que as incertezas no ar contribuem para a estimativa do mercado de um crescimento de apenas 3,5% para 2021, ante 5,9% na média para o Brics.

À frente da elaboração do ranking internacional há 12 anos, Agostini diz que não viu uma concentração tão grande de quedas do PIB nem mesmo durante a crise financeira de 2009. A  Austin avalia que o segundo trimestre foi o fundo do poço da crise detonada pela covid-19 e enxerga o início de uma recuperação já no terceiro trimestre.

“Não vai ter força infelizmente para anular a queda do  primeiro semestre, mas vai ser interessante para amenizar o impacto e pavimentar o crescimento para 2021, que ainda assim será pequeno”, diz Agostini.

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'A política econômica é em grande medida a política de saúde pública', diz economista

Entre os dados negativos do PIB do segundo trimestre, Armando Castelar chama atenção para o aumento de 15,5% na poupança, o que, segundo ele, é um indicativo de que a recuperação poderá ser acelerada

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 15h28

SÃO PAULO - Em meio a tantos números negativos da atividade no segundo trimestre e ao resultado sem precedentes do Produto Interno Bruto (PIB), que registrou queda de 9,7% entre abril e junho ante o trimestre anterior, o economista Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), chama atenção para aumento da taxa de poupança. Com as pessoas confinadas em casa, a poupança subiu para 15,5% como proporção do PIB no segundo trimestre deste ano, superando os 13,7%, registrados no mesmo período de 2019.

Isso revela, segundo o economista, que o consumo não ocorreu pela falta de renda, mas porque os brasileiros não estão saindo de casa. Potencialmente, diz, é um indicativo de que a recuperação poderá ser acelerada, se houver uma melhora na saúde pública. “A política econômica é em grande medida a política da saúde pública”, afirma Castelar. O espaço para o governo agir é acelerar a redução dos casos de covid-19 e, quanto mais rápido fizer isso, a economia voltará a se recuperar.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o resultado do PIB do segundo trimestre?

O resultado foi terrível, totalmente sem precedentes em relação às séries estatísticas que temos. Veio pior do que se imaginava. Nós, do Ibre, trabalhávamos com uma queda de 8,8% e o mercado com algo mais perto de 9%. Os 9,7% foram piores do que se esperava. Nesse sentido, foi o insulto em cima da injúria. O que surpreendeu foi o resultado do governo, da administração pública na parte da oferta e da demanda. Todo mundo esperava uma queda pequena, afinal de contas a saúde pública foi bastante ativa nesse período. Mas o resultado foi bastante negativo. Vamos ter que olhar com mais cuidado, porque os dados do IBGE não detalham. Transporte caiu também bastante: 19,3% em relação ao primeiro trimestre e, em relação ao ano passado, 20,8%. A expectativa era de uma queda na faixa de 14%. Surpreendeu negativamente. Acho que essas são as duas explicações de porque o número veio pior do que o esperado. O PIB só não caiu mais porque a demanda externa aumentou na comparação anual 2,8%. Se não fosse isso, o PIB ao invés de ter caído 11,4% ante o mesmo trimestre de 2019 teria recuado 14%. E o agronegócio ajudou. Os preços das commodities lá fora estão num bom patamar e isso vai continuar ajudando o setor agrícola. A tendência é que a renda dos exportadores tenha um bom resultado este ano

Com esse resultado, qual é sua projeção para o ano?

Eu estava mais otimista, trabalhando com uma queda de 4,5% no ano. Agora projeto queda de 5%. A revisão do PIB do primeiro trimestre, de -1,5% para -2,5%,foi uma notícia adicional ruim. Em março, em particular, a queda foi bastante forte. Abril foi muito profundo. Maio subiu um pouquinho e junho subiu mais. A média é de coisas muito diferentes: queda muito forte em abril, uma pequena elevação em maio e uma elevação mais forte em junho. Essa crise é diferente de outras, com o desemprego muito alto, o consumo das famílias  muito reprimido. Particularmente, como as pessoas estão dentro de casa, não têm ido ao restaurante, shows. Um dado que me chamou bastante atenção foi a alta da poupança. A poupança subiu porque o consumo caiu mais do que a renda. Isso se observa muito claramente na Europa e nos Estados Unidos. Com as transferências de rendas e tudo mais, as pessoas não consumiram. O que mostra que o consumo não ocorreu porque faltou renda. A queda no consumo ocorreu porque as pessoas não estão saindo para consumir.

O fato de a poupança ter aumentado é um sinal positivo?

Potencialmente, sim, porque significa que as pessoas têm recursos para consumir no futuro. Isso poderá acelerar a recuperação. As pessoas estão começando a comprar imóveis, por exemplo. Se houver uma melhora na saúde pública, as pessoas têm recursos para sair consumindo.

Na sua avaliação, está ocorrendo, de fato,  uma recuperação nos últimos meses?

Sim, melhorou a expectativa do mercado porque o auxílio emergencial, que inicialmente que ia até junho, teve mais duas parcelas. Agora foi estendido até o final do ano, com R$ 300. Nos dados mensais, a venda de eletrodomésticos está crescendo muito. O comércio está se recuperando em relação ao mesmo mês do ano anterior. Onde está mal é a venda de automóveis, compras que são mais difíceis de serem feitas pela internet. Além disso, toda a parte de serviços pessoais. O dado de serviços das famílias veio muito negativo e continua bastante afetado pela pandemia. Você já vê aumento do consumo, a produção industrial crescendo, tentando sair do fundo do poço. O comércio conseguiu chegar à superfície, a indústria está perto. Nesse sentido, estou mais otimista em relação ao terceiro trimestre, até porque a base de comparação é muito pequena, com toda essa queda.

O sr. acredita que o PIB do terceiro trimestre virá forte em relação ao segundo?

Sim. Gostaria de enfatizar que tudo isso está condicionado à pandemia. Se houver uma segunda onda, pode piorar. Mas, se houver uma vacina, vai ter um boom.  A tendência é que a gente continue escalando esse poço profundo. Acredito que o terceiro trimestre deve crescer alguma coisa na faixa de 6% sobre o segundo.

Quanto tempo vamos levar para voltarmos ao nível pré-pandemia?

Vamos voltar para o nível pré-pandemia só em 2022.

Vamos sair da recessão antes disso?

De acordo com a definição de recessão técnica, de dois trimestres seguidos de queda do PIB, nós já saímos, porque no terceiro trimestre teremos expansão. O comitê de datação de ciclos econômicos olha isso, mas também vai olhar o emprego e outras coisas que caracterizam recessão. Daí a pergunta é mais difícil. Tanto no Brasil quanto em outros países, o emprego está muito ruim. O emprego está demorando muito para reagir.

O sr. acha que o emprego vai demorar para se recuperar?

Sim e isso não é só aqui. Também em outros países o desemprego aumentou bastante. Principalmente nos setores de serviços pessoais, cabeleireiro, restaurante, médico, escolas. Setores em que há um contato pessoal direto entre o cliente e o prestador de serviço sofrem mais e eles empregam muita gente. Os setores que vão se recuperar bem é o comércio eletrônico, indústria de transformação, construção imobiliária. Agora o setor de serviços é bastante complicado e o setor de transporte também.

Como o sr. vê esse dilema: a concessão do auxílio emergencial que ajuda a economia no curto prazo, mas retira o ímpeto de crescimento no médio prazo por causa do aumento do endividamento público?

Esse é um imperativo que está colocado a todos os países. Existem três situações. Há países que têm dívida pequena e têm espaço fiscal para gastar mais por mais algum tempo, como a Coreia do Sul.  Outro caso é de países com dívida alta, mas com muita gente que vai comprar, caso dos Estados Unidos. A tendência dos EUA é continuar com posição fiscal relaxada.  A situação do Brasil é ruim porque já tem uma dívida muito grande. Então, não temos a  liberdade que têm a Coreia do Sul e a Alemanha para gastar. O que o Brasil poderia fazer é redirecionar o gasto para as pessoas mais pobres e fazer uma rede de proteção social. Os mais pobres gastam uma parcela muito grande da renda e isso ajudaria a impulsionar o consumo. É preciso focar melhor o gasto do auxílio emergencial para as pessoas de renda mais baixa e olhar também para outras políticas. Por exemplo, acho que é uma boa hora para rediscutir subsídios para empresas. Existem muito gastos que não contribuem para manter a economia andando. Não são gastos prioritários neste momento. Qualquer coisa fora disso vai gerar aumento dos juros e preocupação da situação fiscal a médio prazo.

O governo tem poucos instrumentos para minimizar essa recessão?

Sim. O que ele precisa fazer é retroceder a pandemia o mais rápido possível. Com isso, as pessoas que não estão consumindo por problemas sanitários, saem  para consumir, gastando a poupança acumulada. A solução é cuidar da pandemia. Quanto mais rápido fizer isso, mais rápido volta a saúde privada, a educação privada, o consumo de serviços. A política econômica é em grande medida a política da saúde pública. Quanto mais rápido agir na saúde pública, mas rápido a economia volta a se recuperar.

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