Aumenta o risco de estagflação
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Aumenta o risco de estagflação

A combinação baixo crescimento com alta de preços se tornará inevitável caso o governo Bolsonaro sacrifique ainda mais a situação fiscal e empurre o País para políticas mais populistas visando a reeleição

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 19h41

O barômetro do crescimento econômico com que opera o Banco Central veio mais forte do que o esperado. É o Índice da Atividade Econômica, conhecido pela sigla IBC-Br, que apontou em julho um avanço de 0,6% sobre o mês anterior e de 6,8% nos sete primeiros meses do ano. Esse medidor tende a antecipar o resultado do PIB que só é divulgado um ou dois meses depois.


Essa robustez estatística não passa firmeza para ninguém. O entendimento dos analistas é o de que o pouco mais de 5% de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) previsto para este ano deve ser revisto para alguma coisa em torno dos 4,5%, e os 2,0% esperados para 2022 também têm de ser rebaixados para menos de 1%. A tal recuperação em “V”, tão cantada e decantada pelo ministro da EconomiaPaulo Guedes, está mais para voo de galinha.

Já não é mais o risco da variante Delta da covid-19 que puxa a atividade para baixo, porque, em meio aos trancos, a vacinação avança pelo País e já não se espera mais que a população seja engaiolada para se proteger e, por isso, a atividade econômica fique paralisada. Em compensação, outras incertezas se sobrepõem. Já não se vê o mesmo dinamismo no exterior, especialmente depois que se viram as últimas estatísticas menos promissoras do desempenho econômico da China. A inflação global avança e empurra os grandes bancos centrais para paralisarem a injeção de dinheiro na economia e para a inevitável alta dos juros.

Por aqui, a inflação também produz estragos maiores do que os esperados. O custo de vida está sendo empurrado para cima em consequência da alta dos combustíveis, do gás de cozinha, da conta de luz e dos alimentos. Cerca de 72% dos itens que compõem a cesta de consumo apontam aumento de preços, o que demonstra que a pressão não está concentrada em meia dúzia de itens; ela já está espalhada.

Enquanto isso, o Banco Central, que já vinha sendo surpreendido por essa estocada dos preços, começa a demonstrar desassossego, porque sua direção está à procura de bodes expiatórios. Pela primeira vez, ouviu-se um presidente do Banco Central, no caso Roberto Campos Neto,  se queixar de que a Petrobras reajusta rapidamente demais seus preços, o que, segundo ele, vem pesando na alta geral. Curiosamente, não disse o mesmo dos alimentos exportáveis, como soja, milho, açúcar e café, cujos preços são reajustados instantaneamente. Nem foi capaz de apontar como outro fator altista as cotações do dólar no câmbio interno, que ele poderia derrubar com uma atuação mais agressiva no mercado. Na medida em que sugeriu que os preços da Petrobras deveriam ser de alguma maneira controlados, Campos Neto semeou mais insegurança.

E nem se fale da questão fiscal. O teto dos gastos já mostra inúmeras goteiras e a determinação do governo de adiar pagamentos dos precatórios aponta para o calote, que acontece não só quando o devedor deixa de honrar uma dívida mas, também, quando não paga no prazo contratual.

Agora ficou inevitável um puxão ainda mais vigoroso do que já estava prometido nos juros básicos (Selic) para tentar derrubar a inflação e recuperar a capacidade de ancorar as expectativas. Essa perspectiva vai desenhando uma situação de estagflação, ou seja, de estagnação da produção combinada com inflação mais alta do que a tolerável, num ambiente de alto desemprego, de mais de 14,1% da força de trabalho, o que equivale a 14,4 milhões de pessoas sem trabalho. Daí a percepção de voo da galinha.

Como 2022 será ano eleitoral, a prostração da economia tenderá a trabalhar contra a candidatura do presidente Jair Bolsonaro a mais quatro anos de mandato. É um quadro geral que aumenta o risco de que o governo sacrifique ainda mais a situação fiscal e empurre o País para políticas mais populistas. Ou seja, é um quadro que aponta para mais incertezas.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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