Capítulo 30

Tão perto e tão longe do crescimento

As condições para a economia voltar a crescer melhoram, mas essa retomada parece estar muito distante

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2019 | 12h00

Caro leitor,

A economia brasileira atravessa um momento paradoxal. As condições para o crescimento econômico raramente foram tão boas como as do cenário atual. A taxa de juros está no patamar mais baixo de todos os tempos, 5,5% ao ano. A inflação se mantém comportada como nunca antes, abaixo da casa dos 4%. Com o desemprego alto, reflexo da forte recessão que ainda tentamos deixar para trás, há mão de obra qualificada abundante e barata. O dólar parece ter estacionado na faixa acima dos R$ 4,00 -  que a indústria sempre buscou, para facilitar as exportações. E o risco país, indicador que aponta a possibilidade de calote de uma nação, está no seu patamar mais baixo em seis anos, menor até do que quando o Brasil era considerado grau de investimento.

Mas nada disso tem sido suficiente para impulsionar o crescimento. Os investimentos não têm reagido.  As desconfianças em relação aos rumos do país ainda são muito grandes. E uma crise internacional que parece estar se formando também não ajuda muito nesse cenário.

Em entrevista aqui para o Estadão, Daniela da Costa-Bulthuis, da gestora holandesa Robeco, uma das maiores da Europa, disse que o relativo otimismo com as medidas econômicas no Brasil – em particular com o avanço de uma agenda de reformas importantes, como a da Previdência - esbarra na preocupação com a atuação do governo Jair Bolsonaro em campos como o ambiental, diplomático e institucional.

E a questão ambiental, nesse caso, ocupa o topo das preocupações dos investidores, segundo ela. “Ele (Bolsonaro) tem de divulgar com clareza qual vai ser a política ambiental”, disse. “Tudo que a gente viu até agora foi no sentido de reduzir multas, interferência em órgãos de controle.”

Na mesma linha, um grupo de 230 investidores institucionais, com ativos de US$ 16,2 trilhões sob gestão, publicou uma carta ao governo esta semana pedindo “ações urgentes” para conter os incêndios “devastadores” na Amazônia.

O problema ambiental também foi o mote para o parlamento da Áustria aprovar uma moção contra o acordo comercial firmado em junho entre a União Europeia e o Mercosul. Isso colocaria em risco o acerto, que precisa do aval de todos os países.

Mas, claro, a questão da Amazônia não é tudo. A agenda liberal proposta pelo ministro Paulo Guedes avança em ritmo mais lento que o esperado. O programa de privatizações e concessões, apontado como uma forma rápida e segura de trazer investimentos, patina. Como disse nossa colunista Cida Damasco, a lista agora se resume ao que é “possível”.

Há resistências dentro e fora do governo ao programa. Na quinta-feira, 19, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, disse, por exemplo, que os senadores não têm disposição para aprovar um projeto de privatização da Eletrobrás.

A conclusão da agenda de reformas ­– que inclui a previdenciária, quase certa, e a tributária, que vem se revelando um grande enrosco – é fundamental para o investidor estrangeiro voltar para o Brasil, segundo nos disse o diretor de Pesquisa Global para Mercados Emergentes do BNP Paribas em Londres, Marcelo Carvalho.  Mas isso ainda pode levar muito tempo.

E o cenário global também não ajuda muito. As perspectivas são de crescimento cada vez menor, e os bancos centrais por todos os lados reduzem os juros, para tentar estimular a atividade. A guerra comercial entre Estados Unidos e China, que não dá sinais de trégua, mergulha o mundo numa enorme incerteza. E agora ainda apareceu um risco adicional, após o ataque a instalações de petróleo na Arábia Saudita.

A retomada do crescimento econômico no Brasil, em suma, parece estar, ao mesmo tempo, muito perto e muito longe.

 

Alexandre Calais

Alexandre Calais

Jornalista

Está no Estadão desde 2004

Bolsonaro e a Economia

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